"... Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel. ..."
Caio Fernando Abreu
"A borboleta não sabe de mim
Eu não sei da borboleta
Sei do voar que me faz cair
No colo da loba e por fim
Peguei e passei pela roleta
Com ela é vôo de borboleta
Pois tem asas frágeis
Mas boca e palavras ágeis
Com ela a agilidade é de
Je me souviendrai
Je t’avais croisé sur lês pavês
Com cuidado pois tuas asas
São quase transparentes
E no minuto de silêncio
É guardado a tempestade
Borboleta eu não sei
Mas hoje e agora é
Eu não sei da borboleta
Sei do voar que me faz cair
No colo da loba e por fim
Peguei e passei pela roleta
Com ela é vôo de borboleta
Pois tem asas frágeis
Mas boca e palavras ágeis
Com ela a agilidade é de
Je me souviendrai
Je t’avais croisé sur lês pavês
Com cuidado pois tuas asas
São quase transparentes
E no minuto de silêncio
É guardado a tempestade
Borboleta eu não sei
Mas hoje e agora é
Baiser salé"
